Porque, afinal, a Inglaterra entregou seu maior trasatlântico aos torpedos de um submarino alemão? Setenta anos depois da I Guerra Mundia, a pergunta permanece no ar.
Reportagem de Geraldo Galvão Ferraz

História do Mar - Revista Naútica
Ele era o maior, mais veloz e sofisticado navio da época

História do Mar - Revista Náutica
O Aviso alemão: Qualquer barco inglês seria atacado

Só que, nesse aspecto a frota nritância
estava anacrônica. Ela somava 61 submarinos, mas apenas dezessete
deles podiam se afastar da costa. Já a frota alemã chegava
a 21 unidades desse tipo de embarcação - e todas ágeis,
modernas e próprias para longos percursos. Como enfrentá-las?
Os ingleses chegaram a pensar numa barreira de redes
e minas através do Canal da Mancha. bandonaram o projeto poque sairia
caro demais. A única alternativa para proteger a costa foi então,
usar algumas minas e criar um patrulhamento interativo. E assim foi feito.
Mas a medida resultou ineficaz. A frota era muito
heterogênea. Misturava barcos de pesca com lanchas e alguns iates.
Pior: apenas uma em cada 85 embarcações desse tipo tinha
rádio. As armas muitas vezes se resumia a rusticos rifles. As táticas
até que eram criativas, mas rudimentares demais para enfrentar submarinos.
Alguns barcos traziam dois homens: um com um saco preto e outro com martelo.
A artimanha: cobrir o periscópio inimigo com o tal saco e, na sequência,
quebrar o vidro com o martelo. Entre uma baforada e outra em seus longos
charutos, o Lorde do Almirantado, Winston Churchill, mostrava-se inconformado.
Para ele a solução era política: instigar os Estados
Unidos a entrar na guerra, aliando-se aos ingleses.
O capitão do Lusitania, William Thomas Turner,
vivia, então, em compasso de espera. Em setembro de 1914, ele foi
informado de que seu navio não seria utilizado como cruzador. Sua
função na guerra, a partir dali, seria deixar os porões
à disposição da Marinha para contrabandear armas e
munição. O aumento de preço do carvão diminuíra
a velocidade do transatlântico. O espaço para passageiros
também se reduziu, bem como a tripulação, que encolhera
para 258 homens.
O capitão Turner não se sentiu muito
confortável debaixo do seu chapéu de comandante em abril
de 1915, quando o Lusitania partiu de Liverpool para Nova York, na sua
101a viagem. Primeiro, porque jamais se habituara ao quepe,
apesar de experiente homem do mar. Ele preferia o chapéu-coco, o
"bowler" - daí, aliás seu apelido "Bowler Bill" . O segundo
motivo do seu desconforto foi a inspeção que fez no barco.
Turner viu falhas nos botes e nos tanques de estabilidade - e exigiu algumas
reformas. Mas a principal razão do seu mau humor era mesmo a ameaça
de ataque contra o Lusitania. No dia 17 de Abril, o transatlântico
partiu para os Estados Unidos, soprando inquietação por suas
impotentes chaminês.
A viagem transcorreu sem acidentes e, no dia 24,
o Lusitania atracou em Nova York. Ali o capitão Turner bateu os
olhos num anúncio assinado pela Embaixada Imperial Alemã
e publicada em nada menos que cinquenta jornais americanos. A sucinta nota
informava que os navios de bandeira inglesa, "ou qualquer um de seus aliados",
estavam, a partir de então, sujeitos a ser destruidos. Era a oficialização
de ameaça. Da Inglaterra, o capitão Hall, da Inteligência
Naval, procurou tranquilizar Turner, deixando claro que tratara de armar
um ostensivo patrulhamento na rota do navio e garantindo que o Lusitania
poderia regressar sem maiores preocupações.
Os alemães, porém já se posicionavam
no Atlântico Norte. O último submarino a partir para a costa
do Reino Unido foi justamente o U-20, que mais tarde decretaria o fim do
Lusitania. Enquanto isso o "galgo dos mares" era carregado no pier 54 do
porto de Nova York. Recebia uma estranha carga, que misturava quejos, 1
638 lingotes de cobre, manteiga e 51 toneladas de granadas, entre outras
mercadorias. Um carregamento tão variado quanto altamente explosivo.
No dia da partida 30 de abril, pouco antes do meio-dia,
o capitão Turner, com o seu indefectível chapéu-coco,
recebeu as instruções de viagem. Devia seguir a rota costumeira.
Quando chegasse perto do porto inglês de Fasternet, o Lusitania receberia
a escolta do cruzador inglês Juno. Aflito, um passageiro conseguiu
chegar até Turner e perguntou-lhe sobre o risco da viagem. "Sempre
há perigo", respondeu o capitão, "Mas a melhor garantia é
o prórpio Lusitania e o fato que sua segurança está
nas mãos da Marinha Real." Turner não sabia, mas quando seu
navio zarpou dos Estados Unidos, do outro lado do Atlântico, o submarino
alemão U-20 também partia para Fastnet, na Inglaterra.
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O Almirantado Britânico desistiu de escoltar o Lusitânia

No mesmo instante, na sala de mapas do Almirantado
Britânico, acontecia uma reunião entre Churchill, o primeiro-lorde-do-mar
Fisher e o almirante Oliver. Eles analisavam a situação.
O submarino alemão U-30, segundo as informações, estava
ao norte da Irlanda e não representava maiore perigo. A atenção
agora tinha que ser direcionada para o U-20, na área de Fastnet.
O cruzador Juno, já estava destacado para a região. Preocupado,
Oliver alertou Churchill para o perigo de expor o cruzador inglês
a um ataque sem escolta e sugeriu o envio de contratorpedeiros. Estranhamente,
o Diário de Guerra do Almirantado termina aí - bruscamente
- seu relato. O fato é que, depois, o Juno recebeu ordens de abandonar
a missão. Consequentemente, o Lusitania ficou sem proteção
alguma. Mas o capitão Turner nem sequer foi notificado disso. O
que teria, afinal, acontecido? Sabe-se que Churchill e Fisher estavam mais
preocupados com o front grego de Dardanelos. Isso, todavia, não
era motivo para que simplesmente se esquecessem do Lusitania, deixando
à própria sorte o maior navio inglês de passageiros.
Por sua vez, Turner estava preocupadíssimo.
No dia seguinte, ele entraria na zona perigosa de Fastnet e o aviso alemão
nos jornais americanos não saia da sua cabeça. Foi então
que surgiu um princípio de nevoeiro na região. O capitão
decidiu que, se ele aumentasse, atravessaria o estreito Canal de São
Jorge - entre Irlanda e País de Gales - durante a noite. A idéia
era ficar distante de Fastnet, num curso de 20 milhas ao sul da costa irlandesa.
Velho conhecedor daquelas águas, Turner sabia que podia seguir em
frente, orientando-se pelos marcos do litoral. Como, por exemplo, a Cabeça
Velha de Kinsale, um promotório rochoso.
Naquele dia, o comandante do U-20, capitão
Schwieger, anotou em seu diário de bordo que passara a sudoeste
de Fastnet pouco depois das 14 horas. Seu curso era quase idêntico
ao que Turner planejara para o Lusitania. Ao anoitecer, ele avistou a escuna
inglesa Earl of Latham, que partira um pouco antes de Liverpool. Rapidamente,
trouxe o U-20 à superfície, ordenou que a tripulação
abandonasse a escuna e, em seguida, a fez explodir. O submarino alemão
ainda tentou atacar um segundo barco inglês, que no entanto, conseguiu
se esquivar a tempo, ajudado pelo nevoeiro. Temendo, então, uma
resposta do patrulhamento costeiro inglês, Schwieger rumou para alto-mar.
Pretendia passar a noite em segurança e na superfície. O
Almirantado Britânico logo foi informado dos dois ataques alemães,
mas não tomou nenhuma atitude.
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O Grande transatlântico desapareceu em 18 minutos

Somente às 19 horas de 6 de maio o Lusitania
soube que havia submarinos em atividade ao longo da costa sul da Irlanda.
Imediatamente, Turner colocou seu navio em estado de alerta. A bordo a
tensão era muito grande. Pela manhã, Turner começou
a procurar o cruzador Juno, que deveria estar em algum lugar à frente,
para dar proteção. A visibilidade, na ocasião, de
30 metros. O capitão fez soar a sirene do Lusitania, para se comunicar
com outro barco. Mas, àquela altura, o Juno estava a pelo menos
100 milhas dali.
Para "decepcionar" o Lusitania só havia o
submarino alemão U-20. Schwieger subiu à superfície
e rumou a toda a velocidade para Fastnet, Turner tamb~em mudou de posição.
Ele recebera uma mensagem em código do almirante Coke, mandando
que desviasse para Queenstown - oque acabou facilitando as coisas para
o U-20. Era como se os dois barcos houvessem marcado um encontro no mar.
Até hoje, o Almirantado Britânico nega a expedição
da tal mensagem em código, apesar da evidência de uma cópia
idêntica da estação naval de Valentina.
No começo da tarde do dia 7 não havia
mais nevoeiro e o capitão Turner pôde avistar a Cabeça
Velha de Kinsale - sua referência de continente. À 1h40, com
o periscópio, Schwieger viu alguma coisa, só que mais atraente:
o Lusitania. Era um alvo fácil, movendo-se a 18 nós em linha
reta. O U-20 preparou o torpedo. Enquanto isso, muitos passageiros do transatlânmtico
já tinham terminado de almoçar no salão estilo Luis
XV. Enquanto alguns se refestelavam no convés, aproveitando a tarde
agradável, outros esperavam o café na sala de estar. Ao fundo,
a orquesta de bordo tocava Danúbio Azul. O clima voltará
a ser de tranquilidade, mas o desfecho estava próximo.
Às 2h09, o U-20 atirou seu torpedo - uma
bomba de 150 quilos. Um dos vigias do Lusitania chegou a ver a fenda branca
abrindo-se célere nas águas e deu o alarme. Só que
não havia como reagir. Precisamente um minuto depois, o petardo
atingiu o transatlântico atingiu. Um pouco à frente da chaminé
da proa, elevou-se um enorme jato d´água. Era o Fim.
O próprio Schwieger se espantou com a facilidade
com que o Lusitania sucumbiu ao torpedo. No diário de bordo do U-20,
ele descreveu assim o que viu: "Ouve-se uma detonação singularmente
forte e se ergue uma nuvem enorme. A explosão do torpedo deve ter
sido seguida por outra. Talvez a caldeira, carvão ou pólvora.
A superestrutura, acima do ponto de impacto, e aponte foram despedaçadas.
O fogo irrompe e a fumaça envolve a ponte superior. O navio pára
e aderna rapidamente para boreste, afundando simultaneamente na proa. A
impressão é de que afundará em poucos minutos. Os
botes salva-vidas são arriados e alguns chegam até a água.
Há grande pânico. Alguns botes, completamente lotados, são
arriados rapidamente. Caem na água de proa ou popa e afundam".
A seguinda explosão relatada pelo comandante
do U-20 foi a que arrancou a maior parte do fundo da proa do navio. Seria
o carregamento de granadas ou o conteúdo duvidoso das caixas de
manteiga e queijo? A resposta ninguém sabe. Sabe-se apenas que o
Lusitania, afundou totalmente em 18 minutos - e que foram poucos os sobreviventes,
porque fora difícil demais lançar ao mar os botes salva-vidas.
Para piorar os barcos de resgate demoraram mais de 2 horas para chegar
ao local, apesar da proximidade da costa. Na verdade, o Almirantado temia
enviar o Juno e submetê-lo, também, ao fogo do U-20.
Ao começar sua reportagem sobre o Lusitania,
o jornalista Colin Simpson pensava apenas escrever sobre o lendário
carregamento de ouro que teria submergido com o transatlântico. Mas
acabou encontrando um fato muito mais valioso, algo forte o bastante para
reabrir a polêmica sobre um dos lances mais marcantes - e chocantes
- do século.
Esta é uma carta do Lusitania de 18 de Outubro de 1908, de Nova York para Liverpool com carimbo de chegada de Danzig dia 28 de Outubro de 1908. Utilizando um inteiro postal de 2 cents, 1904 Sc U396 " Re-Cut Die", selo da Fundação de Jamestown, 2 cents de 1907, e selo de 1 cent, Sc328, 1907, alusivo ao capitão John Smith.